terça-feira, 6 de novembro de 2012

Figuras de linguagem - Questões discursivas com gabarito comentado




1. (Unicamp 2012)  O parágrafo reproduzido abaixo introduz a crônica intitulada Tragédia concretista, de Luís Martins.

O poeta concretista acordou inspirado. Sonhara a noite toda com a namorada. E pensou: lábio, lábia. O lábio em que pensou era o da namorada, a lábia era a própria. Em todo o caso, na pior das hipóteses, já tinha um bom começo de poema. Todavia, cada vez mais obcecado pela lembrança daqueles lábios, achou que podia aproveitar a sua lábia e, provisoriamente desinteressado da poesia pura, resolveu telefonar à criatura amada, na esperança de maiores intimidades e vantagens. Até os poetas concretistas podem ser homens práticos.

(Luís Martins, Tragédia concretista, em As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 132.)

a) Compare lábio e lábia quanto à forma e ao significado. Considerando a especificidade do poeta, justifique a ocorrência dessas duas palavras dentro da crônica.
b) Explique por que a palavra todavia é usada para introduzir um dos enunciados da crônica.


Resposta:

a) O termo “lábio” designa cada parte externa do contorno da boca, e o seu feminino, ”lábia”, está associado, na linguagem informal, à arte de iludir alguém com palavreado astucioso. Através da figura de linguagem denominada paranomásia, o autor brinca com esse recurso usado frequentemente pelos poetas concretistas para narrar o episódio.
b) A conjunção coordenativa “todavia” é usada para introduzir uma ideia que contraria a preocupação inicial do poeta em fazer um poema concreto, pois a urgência em estabelecer contato com a namorada era ainda mais forte.




TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
            Daí à pedreira restavam apenas uns cinquenta passos e o chão era já todo coberto por uma farinha de pedra moída que sujava como a cal.
            Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se trabalhadores, uns ao sol, outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de palmeira. De um lado cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam a picareta; de outro afeiçoavam lajedos1 a ponta de picão2; mais adiante faziam paralelepípedos a escopro2 e macete2. E todo aquele retintim de ferramentas, e o martelar da forja, e o coro dos que lá em cima brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zoada ao longe, que vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada; tudo dava a ideia de uma atividade feroz, de uma luta de vingança e de ódio. Aqueles homens gotejantes de suor, bêbedos de calor, desvairados de insolação, a quebrarem, a espicaçarem, a torturarem a pedra, pareciam um punhado de demônios revoltados na sua impotência contra o impassível gigante que os contemplava com desprezo, imperturbável a todos os golpes e a todos os tiros que lhe desfechavam no dorso, deixando sem um gemido que lhe abrissem as entranhas de granito. O membrudo cavouqueiro3 havia chegado à fralda4 do orgulhoso monstro de pedra; tinha-o cara a cara, mediu-o de alto a baixo, arrogante, num desafio surdo.
            A pedreira mostrava nesse ponto de vista o seu lado mais imponente. Descomposta, com o escalavrado5 flanco exposto ao sol, erguia-se altaneira e desassombrada, afrontando o céu, muito íngreme, lisa, escaldante e cheia de cordas que mesquinhamente lhe escorriam pela ciclópica6 nudez com um efeito de teias de aranha. Em certos lugares, muito alto do chão, lhe haviam espetado alfinetes de ferro, amparando, sobre um precipício, miseráveis tábuas que, vistas cá de baixo, pareciam palitos, mas em cima das quais uns atrevidos pigmeus de forma humana equilibravam-se, desfechando golpes de picareta contra o gigante.
            O cavouqueiro meneou a cabeça com ar de lástima. O seu gesto desaprovava todo aquele serviço.
            – Veja lá! disse ele, apontando para certo ponto da rocha. Olhe para aquilo! Sua gente tem ido às cegas no trabalho desta pedreira. Deviam atacá-la justamente por aquele outro lado, para não contrariar os veios da pedra. Esta parte aqui é toda granito, é a melhor! Pois olhe só o que eles têm tirado de lá – umas lascas, uns calhaus7 que não servem para nada! É uma dor de coração ver estragar assim uma peça tão boa! Agora o que hão de fazer dessa cascalhada que aí está senão macacos8? E brada aos céus, creia! ter pedra desta ordem para empregá-la em macacos!
            O vendeiro escutava-o em silêncio, apertando os beiços, aborrecido com a ideia daquele prejuízo.

Aluísio Azevedo
O cortiço. São Paulo: Ática, 2009.

Vocabulário:
1 lajedos - pedras
2 picão, escopro, macete - instrumentos de trabalho
3 cavouqueiro - aquele que trabalha em minas e pedreiras
4 fralda - parte inferior
5 escalavrado - golpeado, esfolado
6 ciclópica - colossal, gigantesca
7 calhaus - pedras soltas
8 macacos - paralelepípedos


2. (Uerj 2011)  O texto de Aluísio Azevedo, que faz parte da estética naturalista, utiliza recursos expressivos de sonoridade, como a onomatopeia.

Considere o seguinte fragmento:
E todo aquele retintim de ferramentas, e o martelar da forja, e o coro dos que lá em cima brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zoada ao longe, que vinha do cortiço, (2º parágrafo)

Indique dois exemplos do emprego da onomatopeia e justifique a sua presença no texto naturalista.


Resposta:

A onomatopeia é uma figura da retórica que, através de imitação ou reprodução, aproxima por semelhança o som de uma palavra à realidade que representa, seja o canto dos animais, o som dos instrumentos musicais ou o barulho que acompanha os fenômenos da natureza. “Retintim” expressa o ruído de objetos metálicos que se chocam entre si e contra a pedra, e “zoada”, o zumbido provocado pelas vozes e ruídos que vinham do cortiço.



  
3. (Unicamp 2010)  “Os turistas que visitam as favelas do Rio se dizem transformados, capazes de dar valor ao que realmente importa”, observa a socióloga Bianca Freire-Medeiros, autora da pesquisa “Para ver os pobres: a construção da favela carioca como destino turístico”. “Ao mesmo tempo, as vantagens, os confortos e os benefícios do lar são reforçados por meio da exposição à diferença e à escassez. Em um interessante paradoxo, o contato em primeira mão com aqueles a quem vários bens de consumo ainda são inacessíveis garante aos turistas seu aperfeiçoamento como consumidores.”
No geral, o turista é visto como rude, grosseiro, invasivo, pouco interessado na vida da comunidade, preferindo visitar o espaço como se visita um zoológico e decidido a gastar o mínimo e levar o máximo. Conforme relata um guia, “O turismo na favela é um pouco invasivo, sabe? Porque você anda naquelas ruelas apertadas e as pessoas deixam as janelas abertas. E tem turista que não tem ‘desconfiômetro’: mete o carão dentro da casa das pessoas! Isso é realmente desagradável. Já aconteceu com outro guia. A moradora estava cozinhando e o fogão dela era do lado da janelinha; o turista passou, meteu a mão pela janela e abriu a tampa da panela. Ela ficou uma fera. Aí bateu na mão dele.”

 (Adaptado de Carlos Haag, Laje cheia de turista. Como funcionam os tours pelas favelas cariocas. Pesquisa FAPESP no. 165, 2009, p.90-93.)

a) Explique o que o autor identifica como “um interessante paradoxo”.
b) O trecho em itálico, que reproduz em discurso direto a fala do guia, contém marcas típicas da linguagem coloquial oral. Reescreva a passagem em discurso indireto, adequando-a à linguagem escrita formal.


Resposta:

a) O paradoxo reside no fato de os turistas, ao contatarem setores sociais que não usufruem de conforto nem têm satisfeitas as suas necessidades básicas, não se sentirem incomodados com a desigualdade social, o que, naturalmente, implicaria numa reflexão sobre atitudes claramente consumistas, típicas de uma classe privilegiada como a sua. Pelo contrário, a visita à favela “garante aos turistas seu aperfeiçoamento como consumidores”, ou seja, reafirmam suas opções consumistas.
b) Um guia relatou que o turismo na favela é um pouco invasivo, pois, ao andarem por aquelas ruas estreitas e, como os moradores deixam as janelas abertas, os turistas olham, sem pudor, para dentro das casas, criando situações desagradáveis, como a ocorrida com outro colega de trabalho. Contou que uma moradora cozinhava em seu fogão localizado perto da janela, quando um turista, que por ali passava, enfiou o braço e abriu a tampa da panela, enfurecendo a mulher que chegou a golpeá-lo.



  
4. (Unicamp 2010)  A propaganda a seguir explora a expressão idiomática ‘não leve gato por lebre’ para construir a imagem de seu produto:

NÃO LEVE GATO POR LEBRE

SÓ BOM BRIL É BOM BRIL

a) Explique a expressão idiomática por meio de duas paráfrases.
b) Mostre como a dupla ocorrência de BOM BRIL no slogan ‘SÓ BOM BRIL É BOM BRIL’, aliada à expressão idiomática, constrói a imagem do produto anunciado.


Resposta:

a) Algumas paráfrases (interpretações livres e adaptadas mas que não alteram o conceito original) são possíveis, como: “ Não leve o falso, pensando que é o verdadeiro”, “ Não troque um produto confiável, por outro que não o é”, “Não compre um produto só pela aparência”.

b) A primeira ocorrência aponta o produto pelo seu nome próprio, e, através de uma metonímia (marca pelo produto) substitui o substantivo comum “palha-de-aço”. Na segunda ocorrência destaca-se o produto ao caracterizá-lo como único, ou o melhor entre todos. Associando a expressão idiomática “gato por lebre” ao anúncio específico do produto, deduz-se que “lebre” é BOM BRIL e todos os outros produtos similares são “gato”.



  
5. (Fgv 2009)  Leia o poema de Alberto Caeiro.

(...)
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é _______ saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
_______ quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe _______ ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência
E a eterna inocência não pensar...
a) Empregue, correta e respectivamente, nas lacunas do poema, as palavras: porque, por que, porquê ou por quê.
b) Transcreva o verso em que há uma figura de linguagem. Identifique-a.


Resposta:

a) "Se falo na Natureza, não é PORQUE saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso, PORQUE quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe POR QUE ama, nem o que é amar..."

b) Há "elipse" do verbo no último verso: "E a eterna inocência [é] não pensar". Como se trata de verbo que aparece no contexto próximo (na oração anterior, no verso anterior), trata-se de "zeugma". Além dessa "elipse", há nos versos transcritos um "poliptoto", figura que consiste na repetição de uma palavra em suas diversas flexões. 

Link para questões de outras disciplinas:  http://araoalves.blogspot.com.br/

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